LEITURAS SOBRE COMPORTAMENTO E AÇÃO: #07 - Ser o Centro x Fazer parte do Centro
Porque, convenhamos, a rotina gira toda em volta da gente, o
relatório que precisa sair até sexta, a conta que insiste em não fechar, o
filho que pede atenção justo na hora da reunião, o corpo cobrando a academia
abandonada desde março, a pós que não termina nunca, o grupo da família com 147
mensagens não lidas, enfim...
E tudo isso, de fato, orbita em torno de nós — não há como
negar, somos o centro do nosso próprio universo e é a partir dele que
compreendemos nossa evolução, nosso crescimento, o sentido daquilo que fazemos.
O problema começa quando o centro do NOSSO universo passa a ser confundido com
o centro DO universo.
Imagine a convenção de fim de ano de uma grande empresa,
palco montado, telão de LED, o diretor subindo sob aplausos pra apresentar os
números do ano, “batemos a meta”, “eu bancava esse projeto quando ninguém
bancava”, “minha estratégia”, microfone na mão, troféu na outra, foto pro
LinkedIn garantida. Enquanto isso, lá no fundo do salão, perto da porta da
cozinha, está o rapaz da TI que passou três madrugadas segurando o sistema de
pé pra que os pedidos não caíssem na Black Friday, a moça do atendimento que
segurou cliente irritado no grito, a equipe da limpeza que chegou às cinco da
manhã pra que aquele salão estivesse impecável naquela noite... ninguém chamou,
ninguém citou, ninguém viu.
Da mesma forma, quem manja um pouco de futebol sabe que o
centroavante que faz o gol e corre pra torcida batendo no peito, como se
tivesse driblado o time inteiro sozinho, esquece do volante que roubou a bola
lá atrás, do lateral que cruzou, do goleiro que segurou o zero no primeiro
tempo — e, mais ainda, esquece que o jogo existia antes dele e vai continuar
existindo depois que ele pendurar a chuteira. Nenhum craque é maior que o
futebol.
Ora, cabe aqui então uma reflexão... você tem vivido como
quem só é SERVIDO pela vida, ou como quem também a SERVE?
Porque a vida é MUITO maior do que cabe dentro de nós
mesmos, a natureza, as pessoas, tudo aquilo que existe, e apesar de estarmos
nela e de ela, de certa forma, nos SERVIR — o ar, a água, o alimento, o
trabalho, a mão estendida de alguém — definitivamente não somos MAIORES que
ela, até mesmo porque DEPENDEMOS dela pra continuar existindo. E aqui não se
trata de escolher entre ser CENTRO ou ser PARTE, é ser CENTRO e PARTE ao mesmo
tempo, SERVIDO e SERVIDOR, sem que um lado cancele o outro.
Dessa forma, se há um caminho, uma trilha, um sentido que
nos leva em frente — e há, nem que seja o de crescer e se desenvolver — ele
passa justamente por apoiar o CRESCIMENTO/ DESENVOLVIMENTO do outro, inclusive
daquele que nos deve, que nos frustrou, que “pisou na bola” com a gente, e aí a
coisa aperta, porque CRESCER/ DESENVOLVER sozinho é FÁCIL, fazer o outro
CRESCER/ DESENVOLVER é que é DIFÍCIL.
Por fim, ninguém disse que a trilha seria tranquila, e é
imperioso que a gente se proteja de tudo aquilo que nos DESVIA dela — a vaidade
do palco, o atalho, o “eu fiz sozinho”, o conforto de achar que o mundo nos
deve alguma coisa — por mais complicado que isso seja.

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