LEITURAS SOBRE COMPORTAMENTO E AÇÃO: #06 - Plantar x Colher x Contexto


 Será que a gente colhe mesmo aquilo que planta — assim, em linha reta, A dá A, sem curva, sem desvio, sem nada no meio do caminho?

Porque a conta que nos ensinaram parece simples, quase conta de padaria: estudou, passa na prova, guardou dinheiro, faz a viagem, fechou a boca, chega no verão do jeito que queria, tratou bem, vai ser bem tratado, vestiu a camisa da empresa, ganha a promoção, educou com cuidado, o filho sai do jeito que você sonhou... enfim.

Pensa em alguém que passou cinco anos se preparando pra um cargo específico, curso atrás de curso, hora extra, projeto assumido que ninguém queria, tudo milimetricamente plantado pra colher aquela cadeira. Aí vem uma reestruturação, a cadeira simplesmente deixa de existir, e a pessoa é jogada numa área que nunca escolheu, com gente que não conhecia e um trabalho que não estava em plano nenhum. Plantou A. Veio B. E foi justamente ali, no B que ninguém pediu, que ela aprendeu a lidar com gente difícil, a decidir sem manual e a se virar sem a segurança da trilha que tinha desenhado — coisas que a tal cadeira, talvez, nunca tivesse ensinado. Se perguntarem hoje, ela ainda vai dizer que doeu. E também vai dizer que não trocaria.

Qualquer professor manja bem disso: o plano de aula sai de casa pronto, objetivo definido, exercício escolhido, tempo cronometrado, e aí chega numa turma que não leu o texto, ou numa que já sabe tudo, ou num dia de chuva com metade da sala faltando — e o professor que presta muda a rota ali mesmo, na hora, porque o objetivo nunca foi cumprir o plano, era a turma aprender. E do lado de lá da mesa, quase sempre, tem um aluno torcendo o nariz, reclamando que “não era isso que estava no cronograma”, sem perceber que o desvio foi feito justamente pra ele.

Ora, cabe aqui então uma reflexão: quantas vezes você chamou de fracasso uma colheita só porque ela não veio com a cara daquilo que você plantou? E quantas vezes você discordou do método, sem nem desconfiar que estava em plena aula?

A gente aprendeu a medir a vida pela COLHEITA — plantei A, quero A, veio B, deu errado, ponto. Só que a vida não funciona como máquina de troco exato, ela é AÇÃO e REAÇÃO, sempre dentro de um CONTEXTO, e o CONTEXTO, quase sempre, mexe no resultado. Agora, se a gente partir do pressuposto de que a natureza é “perfeita”, e que conhece a trilha que cada um precisa percorrer melhor do que a nossa planilha, a pergunta muda completamente de lugar: deixa de ser “por que não colhi o que plantei?” e passa a ser “o que esse B veio me ensinar?”. E não se trata de dizer que todo B é presente — antes que alguém confunda reflexão com frase de para-choque de caminhão —, porque B frustra, B dói, B atrasa, e tem dia em que B parece só castigo. É COLHEITA E APRENDIZAGEM, a frustração de não ter colhido A convivendo, lado a lado, com aquilo que só o B seria capaz de ensinar. PLANTAR A continua sendo trabalho seu, e trabalho sério. COLHER A, nem sempre foi o objetivo.

E se o B que veio for, justamente, a COLHEITA?

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