Porque a rotina engole a gente de um jeito que quase não
sobra tempo pra parar e responder isso direito: é reunião emendada em reunião,
mensagem que ainda não recebeu resposta, aquele exame médico empurrado pra
semana que vem, a lista de leitura da faculdade que só cresce e nunca diminui,
boleto vencido, ligação que prometi retornar e ainda não retornei, o grupo de
família com duzentas mensagens não lidas... enfim.
E no meio desse corre-corre, tem gente que vive cercada de
fartura — recurso sobrando, patrocínio garantido, evento badalado ‘com faixa na
entrada’, foto pra rede social, discurso de agradecimento puxando aplauso — pra
entregar, no fim das contas, um gesto pequeno, pontual, que mal ‘arranha’ o
problema de alguém. E tem gente que, sem plateia nenhuma, ‘sem verba’, sem
"estardalhaço", resolve a parada de alguém no maior anonimato — sem
que sobre aplauso, crédito ou sequer um story pra postar depois.
É a mesma lógica do trabalho de faculdade feito em grupo —
tem sempre aquele nome bonito na capa que não escreveu uma linha sequer, e
aquele outro, sem crédito nenhum na entrega, que virou a madrugada sozinho
tentando fechar o que faltava. Ou é a mesma lógica do time de várzea, se você
preferir: o capitão que ganhou a braçadeira na reunião de início de temporada
nem sempre é quem entra pra salvar a bola dividida no fim do jogo.
Ora, cabe aqui então uma reflexão: quem, na sua vida,
carrega o crachá do "outro" — colega, parente, integrante do mesmo
grupo, do mesmo time, da mesma corrente de apoio — mas nunca fez nada de fato
quando você precisou? E quem, sem vínculo declarado nenhum, sem crachá, foi
justamente quem apareceu?
Porque, convenhamos — ESTAR PERTO e SER O OUTRO nem sempre
são a mesma coisa. Um mede DISTÂNCIA; o outro mede AÇÃO. Um está no grupo de
WhatsApp, no cargo, na declaração pública de apoio, no crachá pendurado no
pescoço — o outro está no que sobrou de tempo, de energia, de disposição depois
de um dia inteiro tentando dar conta da própria vida. E, goste-se ou não,
PERTENCER não garante AGIR — e, muitas vezes, quem AGE de verdade é justamente
quem, no papel, não pertencia a nada daquilo.
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