LEITURAS SOBRE COMPORTAMENTO E AÇÃO: Episódio #04 - O outro x O outro


 O que te torna próximo de alguém, afinal — a distância que separa duas pessoas, o quanto elas dividem grupo, sobrenome, empresa, time, corrente de mensagens — ou o que uma faz pela outra quando a coisa aperta de verdade?

Porque a rotina engole a gente de um jeito que quase não sobra tempo pra parar e responder isso direito: é reunião emendada em reunião, mensagem que ainda não recebeu resposta, aquele exame médico empurrado pra semana que vem, a lista de leitura da faculdade que só cresce e nunca diminui, boleto vencido, ligação que prometi retornar e ainda não retornei, o grupo de família com duzentas mensagens não lidas... enfim.

E no meio desse corre-corre, tem gente que vive cercada de fartura — recurso sobrando, patrocínio garantido, evento badalado ‘com faixa na entrada’, foto pra rede social, discurso de agradecimento puxando aplauso — pra entregar, no fim das contas, um gesto pequeno, pontual, que mal ‘arranha’ o problema de alguém. E tem gente que, sem plateia nenhuma, ‘sem verba’, sem "estardalhaço", resolve a parada de alguém no maior anonimato — sem que sobre aplauso, crédito ou sequer um story pra postar depois.

É a mesma lógica do trabalho de faculdade feito em grupo — tem sempre aquele nome bonito na capa que não escreveu uma linha sequer, e aquele outro, sem crédito nenhum na entrega, que virou a madrugada sozinho tentando fechar o que faltava. Ou é a mesma lógica do time de várzea, se você preferir: o capitão que ganhou a braçadeira na reunião de início de temporada nem sempre é quem entra pra salvar a bola dividida no fim do jogo.

Ora, cabe aqui então uma reflexão: quem, na sua vida, carrega o crachá do "outro" — colega, parente, integrante do mesmo grupo, do mesmo time, da mesma corrente de apoio — mas nunca fez nada de fato quando você precisou? E quem, sem vínculo declarado nenhum, sem crachá, foi justamente quem apareceu?

Porque, convenhamos — ESTAR PERTO e SER O OUTRO nem sempre são a mesma coisa. Um mede DISTÂNCIA; o outro mede AÇÃO. Um está no grupo de WhatsApp, no cargo, na declaração pública de apoio, no crachá pendurado no pescoço — o outro está no que sobrou de tempo, de energia, de disposição depois de um dia inteiro tentando dar conta da própria vida. E, goste-se ou não, PERTENCER não garante AGIR — e, muitas vezes, quem AGE de verdade é justamente quem, no papel, não pertencia a nada daquilo.

No fim das contas, quem foi mesmo o seu ‘outro’ — quem estava perto, ou quem se aproximou?

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