LEITURAS SOBRE COMPORTAMENTO E AÇÃO: Episódio #02 - Qual a diferença entre fazer e FAZER?


 Quantas coisas se faz no dia a dia? Quantos nós trabalhamos, ou visitamos pessoas, ou vamos a academia, ou cuidamos dos filhos, ou fazemos a comida, ou vamos à escola... enfim... Quanto nosso dia é automatizado e nos entregamos ao fazer e fazer e fazer, sem entretanto, compreender que o fazer está compreendido num gestual com duas possibilidades: de um lado, gente que faz a partir da fartura (tempo, força, dinheiro saúde etc.), mesmo que agindo a partir de uma fração pequena do que tinha. Muitas vezes, inclusive fazendo-se percebida, criando estardalhaço, a fim de cumprir um papel. Do outro, alguém sem quase nenhum destes recursos, muitas vezes, sozinho e de forma invisível, sem necessitar mostrar o quão de fato aquilo faz falta, entregando o pouco que possuía. E a questão é: quem faz mais? É sobre quantidade ou sobre esforço? Se estivéssemos numa escola, por exemplo, quem desenvolveu mais: o que teve a nota mais alta, sem esforço, ou o que teve a nota mais baixa, porém doando mais seu tempo, sua tolerância, sua força etc?

Ora, cabe aqui então uma reflexão que a gente prefere não fazer com muita frequência: quando foi a última vez que você investiu, em qualquer natureza de trabalho, algo que te fez falta de VERDADE?

Porque existe uma diferença — e ela é enorme, mesmo que a gente finja que não é — entre o esforço que SOBRA e o esforço que DÓI. O primeiro é protocolar: você tem, você entrega uma fração pequena do que tem, sente-se bem, segue a vida, e nada mudou na sua rotina no dia seguinte. O segundo exige reorganização. Exige abrir mão de tempo que você usaria com outra coisa, de descanso que você não vai ter, de recurso que ia resolver outra necessidade sua. "Entregar o que SOBRA" é FÁCIL — quase ninguém erra nisso. DIFÍCIL é entregar o que FALTA.

E aqui chegamos no ponto que, convenhamos, é o mais desconfortável de todos: em que CIRCUNSTÂNCIAS você faz isso? Na frente de quem? Porque existe uma versão do esforço real que é, no fundo, um COMPROMISSO ESTÉTICO com a própria IMAGEM — fazemos questão de que alguém veja, de que o esforço seja registrado, comentado, talvez até fotografado, porque parte do "retorno" que buscamos não é a SATISFAÇÃO de TER CONTRIBUÍDO, é o reconhecimento. E existe outra versão, bem mais rara, que acontece no escuro, sem testemunha nenhuma além de você mesmo — e é justamente aí que mora a pergunta que interessa: se NINGUÉM vai saber, você AINDA FAZ? Porque, convenhamos, tem gente que "corre atrás" só quando alguém está olhando o placar.

A diferença entre essas duas cenas não está no volume entregue — está em que NÍVEL DE CONSCIÊNCIA a ação foi processada. Uma pertence ao território do COMPORTAMENTO: reage-se ao ambiente, à plateia, à expectativa social, e o gesto vira performance mesmo que ninguém tenha planejado assim conscientemente. A outra pertence a um território mais raro, que é o da CONSCIÊNCIA de fato — onde a ação não depende de plateia porque ela já está resolvida internamente, antes mesmo de acontecer.

Fica uma REFLEXÃO aqui: Quanto do que você chama de esforço real, na sua vida, sobrevive sem ninguém olhando?

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