Ora, cabe aqui então uma reflexão que a gente prefere não
fazer com muita frequência: quando foi a última vez que você investiu, em
qualquer natureza de trabalho, algo que te fez falta de VERDADE?
Porque existe uma diferença — e ela é enorme, mesmo que a
gente finja que não é — entre o esforço que SOBRA e o esforço que DÓI. O
primeiro é protocolar: você tem, você entrega uma fração pequena do que tem,
sente-se bem, segue a vida, e nada mudou na sua rotina no dia seguinte. O
segundo exige reorganização. Exige abrir mão de tempo que você usaria com outra
coisa, de descanso que você não vai ter, de recurso que ia resolver outra
necessidade sua. "Entregar o que SOBRA" é FÁCIL — quase ninguém erra
nisso. DIFÍCIL é entregar o que FALTA.
E aqui chegamos no ponto que, convenhamos, é o mais
desconfortável de todos: em que CIRCUNSTÂNCIAS você faz isso? Na frente de
quem? Porque existe uma versão do esforço real que é, no fundo, um COMPROMISSO
ESTÉTICO com a própria IMAGEM — fazemos questão de que alguém veja, de que o
esforço seja registrado, comentado, talvez até fotografado, porque parte do
"retorno" que buscamos não é a SATISFAÇÃO de TER CONTRIBUÍDO, é o
reconhecimento. E existe outra versão, bem mais rara, que acontece no escuro,
sem testemunha nenhuma além de você mesmo — e é justamente aí que mora a
pergunta que interessa: se NINGUÉM vai saber, você AINDA FAZ? Porque,
convenhamos, tem gente que "corre atrás" só quando alguém está
olhando o placar.
A diferença entre essas duas cenas não está no volume
entregue — está em que NÍVEL DE CONSCIÊNCIA a ação foi processada. Uma pertence
ao território do COMPORTAMENTO: reage-se ao ambiente, à plateia, à expectativa
social, e o gesto vira performance mesmo que ninguém tenha planejado assim
conscientemente. A outra pertence a um território mais raro, que é o da
CONSCIÊNCIA de fato — onde a ação não depende de plateia porque ela já está
resolvida internamente, antes mesmo de acontecer.

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